Cabeça nas nuvens e pés no chão!
Expresse sua opinião, pensem seres pensantes. Mas, sem essa de palavras escolhidas, é só desabafo!
"... e você estava pensando em voar, mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?"
Olá amigos, irmãos e até ilustres desconhecidos. Vamos trocar idéias e até trocar de idéias. Papo cabeça, papo furado, papo reto, somos todos bem vindos, já que tudo vale a pena quando não temos uma alma pequena!
sábado, 16 de janeiro de 2016
domingo, 3 de janeiro de 2016
Vou relembrar.
Algumas lembranças de minha vida. Não de forma cronológica, mas como uma colcha de retalhos. desculpem os poucos que vierem a ler, eu não fiz correção, eu apenas digitei o que me veio a cabeça. Vou continuar vez em quando.
O grito ecoava na rua, pois do
alto de sua casa, Dona Helena gritava algo que se parecia com um Carne Zé ou
Caju Zé. Dona Helena é a mãe de Carlos José, ou simplesmente Zé, se bem que
depois de nossas peladas vespertinas e dos gritos de Dona Helena, zé passou
também a ser chamada ou por Carne ou por Caju. E o pior é que carne Zé se
retava, ficava indignado com as nossas brincadeiras. E já viu né? Se cair na
troça de criança vira peixe, vira alvo, a gozação é certa.
Morava perto da praia, perto do
Bonfim, bairro muito conhecido, numa rua ainda com um que de interiorano.
Éramos a maioria da Imperatriz, rua que ligava o Largo da Boa Viagem a baixa do
Bonfim. Eu morava no edifício Tarcísio, onde tinha dois blocos de apartamentos
e minha família ocupava o apartamento 201 do Bloco b, do fundo. Tudo bem que
era um apartamento daquele estilo antigo, apartamento grande, sala, cozinha,
banheiro, tudo grande, mas acabava se tornando um apartamento pequeno pelo fato
de também sermos uma família grande. Pai e mãe, cinco filhos homens e uma filha
mulher. Minha irmã tinha um quartinho dela, apertadinho, mas intocável, coisas
de menina. Os cinco garotos se dividiam, se apertavam num quarto com dois
beliches mais uma cama e meus pais é óbvio, na privacidade deles (nem tanto).
Então, é óbvio que tinha muitas
brigas, discussões, imagina, cinco garotos e uma garota juntos em um
apartamento, mas também muita alegria. Nenhuma briga que passasse do limite do
normal, muitas personalidades diferentes e em formação convivendo. Eu gostava muito de ficar com meu irmão
Ricardo, mais velho que eu, pelo interesse em comum que tínhamos desde cedo,
que era o futebol. Lembro que jogávamos bola com uma bolinha de isopor. Éramos
tão felizes. Não tínhamos a grana para ter uma bola, mas a de isopor nos
bastava. Eu me sentia na Fonte Nova, com a camisa do Bahia quando jogava minhas
peladas no prédio. Quando podíamos. Éramos sempre muito marcados por sermos
sobrinhos do dono, e imaginavam que morávamos ali de favor, então, como o dono
do prédio, meu tio também não nos adorava, ou melhor não tinha nenhuma relação
conosco que não fosse a de criticar e demonstrar ódio ou repulsa, até o zelador
do prédio se sentia com esse direito, muitas vezes não deixando meus colegas
entrarem no edifício, assim como alguns vizinhos frustrados tentavam a todo
custo podar o que de melhor a infância nos dá, a alegria. Meu tio, depois que
eu cresci eu consegui captar, nunca foi um cara ruim ou mal, como eu imaginava.
Na verdade, eu o temia, e tinha muita vontade de crescer e sair daquele prédio
o mais rápido possível. Mas entendi que ele era um cara de coração muito bom,
um cara que se doou, mas tinha aquela carapaça dura, talvez por tudo que ele
passou na vida, um cara que cresceu ralando, trabalhando duro. E acredito que
também foi muito influenciado a não gostar de nós, já que ocupávamos um
apartamento que seria rentável para ele.
Passamos uma infância boa, sem
grana sobrando para brinquedos ou supérfluos, mas graças a Deus e o caráter de
meu pai, que sempre foi um cara voltado a trabalho, nunca chegamos nem perto de
passar fome. Éramos todos simples, mas não troco minha infância por outra.
Jogava futebol de botão, aliás, eu ganhava vários campeonatos, futebol,
brincadeiras das mais diversas, e além de tudo, a poucos metros de nossa casa
havia o mar. Ou será o contrário? A poucos metros do mar havia a nossa casa?
Lembro que ia escondido até a praia dar meus mergulhos. Ainda criança. Que
perigo. Não recomendo isso a nenhum outro jovem. Fugia da aula e tomava banho
de cueca, muitas vezes até mesmo nu. Aprendi a mergulhar, a conhecer os peixes,
o movimento da maré e a influência da lua sobre ela. Aliás, o mar me fascina
até hoje. Sempre me fascinou. O cheiro, o gosto, o sonho...
Quando chegava em casa e era
descoberto, a surra era certa. E minha mãe quando queria batia direitinho, de
chinelo ou de cinto. Na verdade, fomos crianças que apanharam na infância, eu e
meus irmãos, mas nada demasiado, mas muitas vezes injusto. Isso não me feriu,
não me marcou de forma negativa e nem me violentou, mas muitas vezes eu me
perguntava porque estava sendo penalizado sem ter feito nada, ou o pior, por
dizer a verdade. A mania que os adultos têm de doutrinar as crianças com a
verdade conveniente, não a verdade pura. Tenho um irmão que em nossas conversas
particulares demonstra um pouco de mágoa pela penalização desnecessária que ele
sofreu, muitas vezes até como um descarrego de emoções represadas, sobretudo de
meu pai. Mas a onda balança o barco diferente de como balança a catraia, e eu e
minha analogia marítima vou vivendo e sendo feliz com quase todo o meu passado.
II
A primeira lembrança que tenho de
meu pai é a lembrança de uma barba cerrada, bem negra, e de um cara fechado,
duro. Tinha algum medo dele. Um cara que trabalhava muito, porém sempre sério
conosco, sobretudo em nossa infância. Muitos pontos positivos. Um cara que
nunca foi dado a bebedeiras, honesto. Lembro que meu pai fumava um cigarro ou
dois ao dia, não sei ao certo. Mas sei que por volta das 20 horas, depois de
fazer a refeição dele, ia para janela e fumava. O maço ficava em casa e durava
dias. Até que começamos a pegar seus cigarros para fumar. Não lembro quais dos
irmãos fazia isso, mas lembro fumávamos, nos engasgávamos com a fumaça. Esse
episódio me marcou pois quando ele percebeu que estávamos pegando os seus
cigarros, ele parou de fumar. Em nossa
adolescência, que foi uma fase em que as coisas começaram a dar mais certo em
relação a trabalho, a remuneração, em poder nos ofertar algo de material, meu
pai ficou também mais leve, mais amigo, pelo menos essa é a leitura que eu faço
dele e também muito mais preocupado com o perigo que nos rodeava.
Minha mãe é aquela professora por
vocação. Fez magistério, chegou a estagiar como professora, e depois a dar
aulas particulares, que no Nordeste chamamos de Banca. A crianças e adultos.
Por muito tempo era conhecida por todos como Pró Ana. Minha mãe sempre foi
aquela mulher muito amiga, altruísta, desapegada. E esses predicados podem
também virar defeitos. Pois a nossa casa, a Casa de Aninha estava sempre
povoada de primos, tias, tios. E sempre éramos procurados como solução para
problemas. Não era aquela coisa de ser bem quisto e estar sendo convidado para
festa ou comemoração. Era uma tia que tinha problemas emocionais e levava
nossos primos para lá durante a madrugada, um tio alcoólatra que ia para lá
para almoçar e depois fazer barulho. Além de outros agregados da rua, pessoas
que parece até que eram atraídas por magnetismo, que ultrapassavam o primeiro
bloco para justamente bater lá em casa. E meu pai sempre segurando a barra,
muitas vezes não era nem perguntado se podia arcar com aquelas despesas.
Muitas vezes penso que é questão
de espírito, de personalidade mesmo, coisa que não se muda. Assim como tem
pessoas com vocação para cuidar de bichos, cuidar de animais, existem pessoas
com a vocação para cuidar de gente. Minha mãe é uma delas, cuidou de muitos e
esqueceu de si mesmo. Muito por que assim optou. Com muitos medos e receios,
até hoje para ir ao médico é necessária uma revolução. Mas, por mais que
prometa que vai mudar, que vai olhar para ela, que vai esquecer os outro, como
disse que penso, é uma questão de espírito. Por esses dias mesmo tem uma tia,
irmã dela, que por necessidade imediata tem estado muito em sua casa. Estava
conversando com um irmão, que nos últimos dias vemos mais essa tia do que vemos
preteritamente por toda vida. Nunca apareceu para dizer um oi, e agora a casa de
Aninha serve. Que bom que sirva. Rogo a Deus que seja guarita por muitos anos,
pois desejo vida abundante para minha mãe por longas datas.
III
O que me recordo muito é que na
área de serviço, anexa a cozinha, tinha duas estantes antigas, de madeira, com
muitos livros. E para mim aquele era um canto de regozijo. Ainda garoto tive
exemplares maravilhosos de literatura ao meu alcance. Graciliano Ramos, Jorge
Amado, Clarice Lispector, Friedrich Nietsche, Herman Hesse, muitos autores
maravilhosos. E ali eu conheci um que se tornou o meu predileto. Gibran Khalil
Gibran. Lembro que o livro era o Mensagens Espirituais, mas como eu estudava
para uma religião, o dogma do certo e do errado me deixava com receio de ler
aquele exemplar. Mas ele me atraía. Assim comecei a ler Gibran. Tinha um livro
de bolso também, chamado Episódios Diários, ditados por Joana de Angelis. Eu
pegava o livreto com uma vontade de ler, ia para o quarto escondido e lia. Mais
do que isso, eu gostava. Para mim foi tão natural sorver aquela literatura, se
bem que eu achava alguns dos autores maçantes...
Eu era muito reservado e gostava
muito de estudar. Pena que não continuei estudando como deveria e como meu pai
me dizia.
Me perguntava se teria uma
namorada. Se algum dia alguma menina gostaria de mim. Um dia ouvi minha mãe
comentando que quando sentíssemos o cheiro de mulher seria coisa. Ficaríamos
ouriçado. E eu fiquei intrigado. Cheiro de mulher? Até que eu senti. E gostei.
E fiquei ouriçado. Taí uma das poucas coisas boas de se morar em edifício. Doze
apartamentos. Sempre tinha menina morando lá. Se bem que eu era bem tímido. De
vez em quando era pego como cobaia para algum experimento delas. Era bom viu?
Ah! Quem me dera voltar no tempo.
Só dessa vez. O que será que eu faria? Que mudaria? Que repetiria?
Ah! A seara do pensamento é muito
grande, e os devaneios também.
Íamos muito a Ilha de Vera Cruz.
Como demos trabalho a pessoas simples que lá moravam. Simples e amigas. Pois
não tínhamos noção de inconveniência e por muitas vezes fomos deveras inconvenientes.
Aprontei muito.
Começamos a ir para casa da irmã
de um amigo de meus Pais. D. Toinha e Seu Manoel. Pessoas humildes mesmo, que
viviam da pesca. Depois nos tornamos assíduos. Íamos sem avisar, levávamos um
leite, um feijão, um arroz, como se para justificar a nossa ida e lá ficávamos
na cara de pau. Sem perguntar se estávamos sobrando. E nessa época estava
andando com uma galera que se parecia pouquíssimo comigo, mas para estar dentro
de um grupo que na verdade nem me convencia. Todo mundo gente boa, de boa
família. Mas uns caras fúteis, como são a maioria dos garotos, uns caras que
viviam de aparência, que gostavam de ditar leis. Porcos, que gostavam de bancar
de playboys, quando na verdade eram pessoas que ostentavam o que não tinham. Enfim,
uns babacas que se achavam todos a última Coca cola do deserto. Foi um erro
numa época propícia a erros. Penso hoje, como eu consegui estar, mesmo por
pouco tempo com aquela galera. Acho que perdi mais do que ganhei. Aliás, ganhei
muita experiência.
Na verdade, a minha galera sou eu
mesmo. Minha personalidade é de rir sozinho, é de me contentar em estar vivo.
Não preciso muito para ser feliz.
Quando completei 14 anos pedi uma
prancha de surf de aniversário. Lembro que Beira Mar tinha duas fábricas. Minha
mãe comprou uma. Então, saí de casa pela manhã cedo, disse a minha mãe que ia à
praia. E fui. Para Stela Maris. Meu primeiro dia e consegui dropar algumas
ondas de joelho. Foi massa. Emocionante. Quando chego em casa à noite está a
rua toda em polvorosa. Minha mãe desesperada. Dizendo que já tinha rodado a
praia da Boa Viagem mais de cinquenta vezes me procurando. Eu esqueci de dizer
que ia para Stella Maris. Acampei, viajei, curti muita praia, senti fome, senti
frio, mas passei por momentos maravilhosos, inenarráveis.
Já saímos com uma barraca que não
conseguimos montar e passamos uma semana ao relento. Passei uma semana só de
água salgada em Itacimirim, junto a tartarugas gigantes. Já tirei várias
pessoas de dentro d’água, e também já precisei ser tirado de dentro d’água,
precisei ser salvo. Vi gente se queimando com água viva e suplicando para
urinarmos em cima. Verdade. Reza a lenda que xixi faz a dor desaparecer. Na
verdade, a água quente atenua a dor. E a que pegou o colega, foi uma caravela
enorme, ele chegou a sentir frio. E suplicar para mijar em cima dele. Como é
que mija?
Namorei pouco, quase nada. Aliás,
penso que nunca tive uma namorada. Conheci muitas meninas, mas nunca me deixava
ficar. Sempre só. Quando minha esposa engravidou do meu primeiro filho,
aconteceu uma cena bem forte e para mim surpreendente. Eu havia me relacionado
com uma garota. Senti que ela gostou de mim, só não sabia o quanto. Mas sempre
me esquivava da relação. Um dia entrando no Edif. Tarcísio, ainda morava lá ela
estava me esperando. Quando entrei ela me peitou e perguntou: por que você não
fez esse filho em mim? Nunca imaginava ouvir aquela indagação. Nada soube
responder. Na verdade, eu fugi. Me arrependo de não ter conversado, de não ter
explicado, de não ter compreendido. A gravidez de meu primeiro filho caiu como
uma luva para minha pretensão de deixar o Edifício Tarcísio, de sair da casa de
meus pais. Não pela minha relação com meus pais, mas eu tinha completado
recente 22 anos e já era tempo de viver outros caminhos.
Não foram fáceis. Minha sogra,
grande mulher, me olhava séria. Na época tudo o que eu tinha era um corpo
bronzeado com algumas tatuagens. Gostava de estudar e tinha força de vontade.
Parecia ter menos de 22 anos por ser magro e despreocupado. Acho que ela pensou
que eu não seria nada. Hoje somos grandes amigos. Fui em busca de emprego.
Mercado de trabalho. O mundo se abrindo. Apesar de ser tímido, nunca tive
problema em falar, em conversar. E assim fui desbravando os caminhos. Foram
tantas experiências que não vale a pena contar todas aqui. Ficaria longa e
maçante, mas daria um livro. Assim como na vida de todos os jovens que vão em
busca de seu primeiro emprego formal, de seus sonhos. Sim, emprego formal, pois
já me virava desde novo para ter meu trocado. Ajudava minha mãe com seus alunos
crianças, que estavam sendo alfabetizados. Dava aula de capoeira, esporte que
sou formado. Montava uma turma boa, botava o som baixinho no Prédio para não
incomodar e mandava ver. Sempre tinha um dinheirinho. Mas o mais hilário foi
quando eu comecei a dar aula de violão sem saber tocar violão. E cobrava por
aula. O aluno fez umas quatro aulas e depois desistiu, A esposa dele quando me
via fechava a cara. Eu ficava ensinando a ele dedilhar, as escalas, mas eu não
sabia nada. Copiava e colava. Que vergonha!
Entrei na Faculdade de História,
saí sem formar da Faculdade de História. Aliás, minto, só entrei, quase não
estudei. Nesse tempo tinha um cargo de gestão numa das tantas empresas que
trabalhei, viajava sempre.
Soneto de criar laço.
Não consegui mais ler, estanquei
Quando na dedicatória enxerguei
Meu nome junto ao teu, então gelei
Ainda mais conquistado fui, me encantei
Se é invisível aos olhos, nós sabemos
Aquilo que é especial. nós sentimos
No linguajar europeu ou nordestino
Não se pode falsificar o que é genuíno
Assim como a raposa do Príncipe Pequeno
Vou sentindo, vou amando, vou vivendo
Não importa se próximo ou distante
Te espero a cada dia, pensamento
Me ter em braços seus, sem lamento
E me entregar aos meus sonhos tão distantes.
( Hermes Boas Novas)
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